quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Consciência Negra...

Arte Afro-brasileira é Arte Brasileira

“O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África”, isso foi dito no século XVII pelo Padre Antônio Vieira reconhecendo, já naquela época, a importância do legado Negro como matriz formadora da cultura brasileira.

A arte negra africana, em especial a plástica, tem características singulares como o ‘design’ diferenciado dos objetos utilitários e jóias; esculturas que poderiam ser classificadas de naturalistas ou expressionistas; e as mascaras que resumem em si a importância que a transcendência religiosa tem para aqueles povos. E tudo isso vem influenciar a arte produzida no Brasil, em especial a modernista. Aliás, é só a partir da semana de 22, com o ideal de antropofagia cultural que a arte negra é redescoberta; temos então Mario de Andrade com o seu Macunaíma; Vila Lobos explorando os ritmos nativos transformando-os em música clássica; Brecheret produzindo esculturas, até então diferentes para os padrões nacionais; Tarsila do Amaral que teve a audácia de retratar uma mulher negra; e Di Cavalcanti com as suas não menos famosas pinturas de “mulatas”. Muitos anos se passaram desde então, outros artistas continuaram e continuam sendo influenciados pela a arte africana, que a esta altura também já é uma arte mestiça.

Mas o inusitado é que hoje, em pleno século XXI, poucos são os que ainda admitem a real importância das culturas africanas na realidade sócio-cultural brasileira. Temos vergonha das nossas origens negras, limitando-nos a exaltar a cultura colonizadora européia. Nas escolas estudamos a mitologia greco-romana, mas discriminamos a mitologia da África subsaariana – possíveis resquícios dos preconceitos difundidos na cultura brasileira pelo Catolicismo e mais recentemente pelas religiões evangélicas que insistem em identificar as religiões de matriz africana como sendo ‘cultos ao demônio’.

Preconceitos, discriminação e senso comum são características da nossa sociedade que não reconhece as inúmeras contribuições do Negro na realidade brasileira, atendo-se tão somente, ao obvio como a capoeira e a feijoada. Como se mais de dois séculos de escravidão e de miscigenação tivessem produzido somente estes dois frutos!

Já é hora de sairmos do discurso e partirmos para a ação, não basta ficarmos elogiando o samba ou Pelé, é necessário que reconheçamos as influências da África. É necessário que olhemos para o “Continente Negro” hoje. Que vejamos que lá ainda se produz arte da melhor qualidade. Tanto quanto nos séculos que antecederam a colonização.

Os artistas europeus de vanguarda, no século XX, reconheceram objetos utilitários produzidos por culturas africanas como sendo arte de alto nível; sendo ela naturalista ou expressionista. Temos também que saber reconhecer que a arte produzida pelo afro-brasileiro, pelo mestiço, não são apenas mero folclore, mas sim a arte de um povo. Expressão de uma arte de nacionalidade brasileira que, assim como o povo, é o resultado de misturas étnicas; que soube fundir o profano e o sagrado em si, tornando o sincretismo religioso um importante catalisador de inspiração artística.

A arte afro-brasileira é acima de tudo uma arte genuinamente brasileira, simbolicamente rica, complexa em sua simplicidade – mesmo que isso possa parecer paradoxal. O grande legado de um povo escravizado.

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